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DO CÉU
AO INFERNO EM DUAS SEMANAS - A STOCK-CAR EM 1979 Por Carlos de Paula Há quem reclame do
campeonato brasileiro de Stock Cars atual. Há aqueles que dizem que o
campeonato é desorganizado, outros que falta compromisso das equipes e pilotos,
que tudo é um jogo de interesses e que automobilismo no Brasil é uma
verdadeira bagunça. Obviamente são pessoas que não conhecem nada da história
do automobilismo brasileiro. O primeiro campeonato
brasileiro de Stockcars foi realizado em 1979, substituindo o Grupo 1, visto que
a concorrência entre Opala/Maverick
evaporara e o campeonato se transformara em virtual monomarca. Assim, a GM
resolveu promover seu produto exclusivamente, chamando-o de “Torneio
Nacional Chevrolet de Stockcar” com óbvia alusão aos carrões americanos
mais brabos. O campeonato, que teria
14 corridas, em si uma grande novidade para os brasileiros acostumados com
campeonatos de seis corridas, começou com virtual domínio de Afonso Giaffone,
que ganhou as três primeiras provas do ano de forma inconteste. Eventualmente a
vantagem dos motores preparados por Jayme
Silva se esvaiu, e outros dois concorrentes entraram na luta pelo título, Paulo
Gomes e Alencar Junior. O calendário incluía
uma prova na distante Fortaleza,
à qual poucos carros apareceram, quase resultando no seu cancelamento.
Entretanto, na maioria das etapas, havia por volta de 25 carros, um bom nível
para o automobilismo da época. Entre os pilotos, alguns ilustres desconhecidos
de capacidade questionável, mas em compensação também disputavam a categoria
Ingo Hoffmann, que
voltava a correr no Brasil após quatro anos de Europa, e o estreante Raul
Boesel, do Paraná, que já ganhara duas corridas quando o “circo”
chegou no Rio de Janeiro, para a 12a. etapa realizada em 25 de novembro.
Ingo
voltava a correr no Brasil, patrocinado por um jornal. Cena difícil de
acreditar hoje em dia. A corrida do Rio foi uma
beleza. Belos pegas e ultrapassagens, tanto que a primeira bateria da corrida
foi considerada a melhor corrida do ano no Brasil, com Boesel, Affonso, Paulão,
Zeca e Ingo trocando posições, resultando em vitória de Ingo. Na segunda
bateria Paulo Gomes reagiu, e na soma dos tempos terminou a corrida em primeiro,
seguido de Raul Boesel, Alencar Junior, Ingo e Joao Carlos Palhares. Affonso
chegara em 13° perdendo terreno para Paulão e Alencar de forma que a disputa pelo título
ficaria acirrada. Havia esperança para o automobilismo do Brasil. O céu.
Duas semanas depois, a
próxima etapa foi realizada em Cascavel,
no Oeste do Paraná, onde a confusão de instalou. Aqui o circo pegou fogo. Da
prova linda e harmoniosa, com ultrapassagens leais e limpas, o clima no Paraná
pareceu tenso logo de cara. Muitos dos 25 concorrentes do Rio resolveram não
viajar para o Paraná, e de fato, só foram aqueles que absolutamente tinham que
estar lá. Ou seja, só 13 carros participariam. O barraco começou
quando foi comunicada a desclassificação do carro de Alencar Junior, que
marcara o melhor tempo nos treinos, justamente um dos fortes concorrentes ao título.
O goiano havia instalado uma bomba de álcool (todas as corridas brasileiras já
estavam sendo disputadas com álcool) de pickup Chevrolet, e o comissário Bruno
Brunetti resolveu desclassifica-lo. Dai, começou o bate-boca. Questões técnicas
foram debatidas, e no final das contas, a tal da bomba de pickup apresentou
defeitos e Alencar instalou uma bomba igual a dos outros carros. Os comissários
decidiram cancelar a desclassificação, voltando Alencar a ocupar a pole. Isto enfureceu diversos
outros pilotos , que exigiam a manutenção da desclassificação. O comissário
Brunetti reuniu os concorrentes, Alencar o acusou de desonesto, Paulo Gomes
tomou a palavra, todo mundo queria falar, e dai o centro das acusações
passou a ser o presidente da Federação Paranaense de Automobilismo, Paulo
Nascimento. O ultimato de um pequeno mas representativo grupo de pilotos, que
incluía Affonso e Zeca Giaffone, Ingo Hoffmann, Paulo Gomes, Paulo Valiengo,
Mauro Sá Motta e Almir Valandro foi de que não participariam de prova, se
Alencar não fosse desclassificado. Dizem que quando Jânio
Quadros renunciou à presidência do Brasil, em 1961, o fez achando que as
lideranças do País o chamariam de volta, e daí ele voltaria à presidência
fortalecido, podendo governar o Brasil da maneira como queria. O maquiavelismo
de boteco não deu em nada, ninguém o chamou de volta, Goulart assumiu, e o
resto é história. Fi-lo por que qui-lo! Nesse caso, o grupo de
pilotos sabia que sem eles não haveria corrida no strictu sensu. Afinal, além
de serem concorrentes importantes, eram oito dos treze pilotos inscritos, e
mesmo que a palhaçada (a corrida) fosse realizada com cinco carros, poderiam
embargar seu resultado nos Tribunais desportivos ou normais. Dane-se o público
de Cascavel, que tanto gosta do automobilismo. Danem-se os patrocinadores.
Dane-se o esporte.
Boesel
ganhou a triste prova de Cascavel: também patrocinado por um jornal! O tiro saiu pela culatra.
Os organizadores conseguiram arranjar dois carros locais, de Mauro Turcatel e
Samuel Neto, este último equipado
com ar condicionado, para perfazer o número mínimo que garantiria a efetivação
do resultado. A politicagem não deu em nada. A corrida foi disputada com meros
sete carros, embora iniciada com atraso (algo impensável na era da TV), para
que os dois bólidos arranjados à pressa fossem “devidamente” preparados.
Raul Boesel acabou ganhando a sua terceira prova do ano, e Alencar Junior, que
abandonara na primeira bateria e ganharia a segunda, marcou os pontos do 4°
lugar. Sem dúvida, este foi o
ponto mais baixo do primeiro campeonato de Stock-Cars, e de certa forma, foi bom
que Paulo Gomes tenha ganho o título na pista, na última etapa.
Indubitavelmente, se Alencar Junior tivesse prevalecido as coisas terminariam em
tribunais, tirando todo o brilho de um campeonato bem disputado e organizado. Que dizem os críticos
da atualidade? As coisas estão más hoje? Querem 1979 de volta? Resultado da 13a. etapa
do Torneio Nacional Chevrolet de Stock-Cars Cascavel, PR 9 de
dezembro de 1979 1. Raul Boesel/O
Globo, 32 v em 45m08,52s 2. Sidney Alves/Banconsorcio,
32 v 3. Valtemir Spinelli/Gledson/Coca-Cola,
32 v 4. Alencar Junior/Metalonita/HD,
24 v NC Samuel Neto/sem
equipe, 23 v NC Carlos Eduardo
Andrade/HD, 21 v
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