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O FIM DA FASE ROMÂNTICAPor Carlos de Paula Contribuição Ricardo
Cunha Pode-se dizer, com certa
segurança, que a linha divisória do automobilismo brasileiro foi o ano de
1972. Não só foi este o ano em que Emerson
Fittipaldi ganhou o seu primeiro título e colocou o Brasil no mapa do
automobilismo internacional, mas também foi o ano em que mais se realizaram
provas internacionais no País. Está certo que todas foram realizadas em
Interlagos, mas tudo parecia caminhar para o lado do profissionalismo, da ordem,
organização, segurança e lógica, enfim, o final da fase romântica do
automobilismo. O automobilismo de rua,
na forma praticada antigamente, era o auge do romantismo. Não podemos esquecer
que no Brasil de 1972 só existiam quatro autódromos de asfalto funcionando: Interlagos,
Tarumã, Curitiba
e Fortaleza. O autódromo
do Rio fora interditado. Portanto, em tese, havia ainda lugar para as corridas
de rua. Em 1972 ainda se
realizaram diversas provas de rua,
duas em Salvador, Bahia, uma no circuito em volta do Mineirão, em Belo
Horizonte, Minas Gerais, e corridas em Brasília. A prova de Minas contou com a
participação de diversos pilotos de primeira linha, e de fato foi ganha por
Tite Catapani, com a Lola da Equipe
Hollywood. As provas de Salvador, entretanto, tinham cunho regional, embora
o “Grande Circuito TV Aratu”, realizado em janeiro, contasse com a
presença de dois pilotos cariocas e um paulista transplantado. Não há dúvida de que
os baianos gostavam de corridas. Realizaram-se
corridas na cidade já nos anos 50, mas no começo da década de 60, as corridas
foram proibidas na cidade, por que um filho de um político local morrera em um
“racha” semi-oficial. Como políticos vêm e vão, e seu maior esporte é
desfazer o que seus antecessores fizeram, eventualmente voltaram as provas em
Salvador. A cidade organizou uma prova de Fórmula
Vê, em 1968, ganha por Heitor Peixoto de Castro, que deixou muito
entusiasmo nos corações dos locais. Depois, em 1969, foi a vez da potente Alfa
P33 de José
Carlos Pace arrancar suspiros dos mais afoitos amantes do automobilismo.
Enquanto isso, continuavam a ocorrer provas locais, como as 2 Horas de
Salvador de 1969, com a participação dos mais importantes pilotos do
Nordeste, como Lulu Geladeira, Arialdo Pinto, Neném Pimentel, André Burity,
Antonio da Fonte, Antonio Cirino e cia Ltda. Para desgosto dos
baianos, entretanto, fora inaugurado o autódromo Virgílio Távora, em
Fortaleza, no Ceará, indicando que o novo pólo do automobilismo regional se
transferiria mais para o norte, o que de fato ocorreu. O GP
de Fortaleza de 1969 contou com muitas feras do Sul, e a etapa do Torneio BUA
de Fórmula Ford sugeria até um futuro internacional para a pista. Em 1971, Salvador foi
incluída no calendário do novo Campeonato
Brasileiro de Viaturas de Turismo, a vulga Divisão 3, mas no final das
contas, as únicas três etapas do torneio acabaram se realizando o mais longe
possível do Nordeste, em Tarumã.
Enquanto isso, continuavam a se realizar provas regionais no Virgílio Távora. A reação veio no
inicio de 1972. Com auxílio da emissora local, a TV Aratu, realizou-se o
“Grande Circuito TV Aratu”, em 30 de janeiro de 1972. Com a presença de
Eduardo Domingues, correndo com um protótipo Heve-VW de 1700 cc, e Milton
Amaral, correndo com um Opala,
a prova prometia muito. O circuito da Avenida Centenário tinha 3.090 metros, e
ficava numa área bem agitada de Salvador. As provas no circuito primavam, em
grande parte, por uma certa falta de organização e insegurança. Mais cedo,
mais tarde, ocorreria algum acidente sério naquela pista, como ocorrera em Petrópolis
em 1968. Inevitavelmente,
ocorriam atrasos, causados por invasões de público e falta de policiamento. No
caso deste prova, o público fora estimado em 60.000 pessoas, uma multidão que
raramente comparecia a Interlagos. Assim, iniciou-se a prova com 35 minutos de
atraso. Os cariocas levaram a prova com certa facilidade, com Domingues
ultrapassando Amaral no final, e o paulista radicado em Salvador, Freddy
O’Hara, batendo o recorde do “circuito”, com um protótipo Lorena
Stacchini. O melhor classificado local foi Jose Luiz Bastos, seguido do
Armando da Fonte, de Pernambuco que corria com um Opala preparado pelo argentino
Froilan Gonzalez. O “circuito” da
Avenida Centenário teria mais uma chance de se firmar e provar sua viabilidade,
com a terceira prova do Torneio Norte e Nordeste de Automobilismo, realizada em
22 de outubro do mesmo ano. De novo, problemas sérios com horário. A largada
havia sido marcada para as 10h15, e só ocorreu 1h15 mais tarde, causando uma
redução no número de voltas. Segundo a organização, a apólice de seguro da
prova só cobria até as 12h30, portanto,as 40 voltas viraram 30. E fazer aquela
prova sem seguro seria completamente irresponsável!!! De fato, chovia muito
naqueles dias, e havia lama em diversas partes do já perigoso e inseguro
percurso. Tal fato resultou em uma tentativa de motim, liderada por Freddy
O’Hara que tentou convencer os colegas a boicotar o evento, devido as péssimas
condições de segurança, além da endêmica falta de policiais, bombeiros e até
mesmo ambulância. No final, a maior parte dos concorrentes largou, inclusive
O’ Hara!!! A corrida contou com
alguns protótipos construídos no Nordeste, entre eles o do vencedor Arialdo
Pinho, com um jeitoso protótipo-VW da Equipe Macepin. Roberto Fiusa,
que viria a dominar as competições nordestinas nos próximos anos, corria com
um Karmann Ghia, e Jose Luis Bastos com um Puma bem preparado. Outros
concorrentes importantes eram Otavio Cravo, Ivan Cravo, Carlos Medrado e Rômulo
Cavalcante. Mais uma vez Bastos foi o baiano melhor colocado, chegando em
segundo lugar. Não fora um bom fim de
semana para O’Hara. Primeiro, perdeu o recorde da pista obtido na prova de
janeiro para Arialdo Pinho, nos treinos. Depois, a sua tentativa de motim foi
abortada. Por fim, sua corrida durou só três voltas, e acabou sendo suspenso
por três meses, por desobedecer uma bandeira amarela e deixar o carro
abandonado em posição insegura. Depois desse evento, as
competições do Torneio Norte-Nordeste passaram a se realizar exclusivamente no
Ceará, e de fato, durante muitos anos só se realizaram corridas em autódromos
no Brasil. Até Belo Horizonte parou de promover corridas nas ruas.
Eventualmente as corridas voltaram às ruas, em provas em Florianópolis, Vitória,
e no ano passado na Bahia, que realizou uma prova do torneio Fiat. Mas agora são
realizadas com segurança. E de preferência, na hora.
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