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FORMULA BRASIL - RETUMBANTE FRACASSOPor
Carlos de Paula A Formula Brasil foi uma
das tentativas de estabelecer uma categoria de monopostos multimarca e duradoura
no Brasil, que viesse a substituir a antiga Mecânica Nacional/Continental dos
anos 50 e 60. Querendo, ou não, no imaginário popular os monopostos
representam o máximo em termos de automobilismo - o puro carro de corridas -
apesar da recente popularidade dos carros turismo e até mesmo de corridas de
caminhões no próprio Brasil. Assim é, e assim era nos anos 60. Muito
frustrava os brasileiros que não houvesse no país uma categoria de monopostos
de alto nível no final dos anos 60. Em tese, a Mecânica
Continental (e anteriormente, a Mecânica Nacional) preenchia esse vácuo.
Na sua última variante disputada com ex carros de fórmula 1 europeus equipados
com motores e câmbios de carros americanos (em grande parte, Chevrolet
Corvette, mas também Ford, Cadillac), os carros eram possantes, mas
indubitavelmente representavam uma era passada. Eram monopostos Maserati,
Ferrari, Alfa Romeo e Talbot de motor dianteiro, uma configuração já não
usada na Fórmula 1 desde 1960, sendo que mesmo Indianápolis já aderira
completamente aos motores traseiros. As últimas corridas de Mecânica
Continental, em 1966, foram tristes espetáculos: pouquíssimos carros se
arrastando na pista, e somente um carro bem preparado, a Maserati-Corvette
de Camilo Cristofaro. Para justificar as mini provas, já se aceitavam até
carros esporte, ou seja, bipostos como a Maserati de Ubaldo César Lolli. Entretanto, a primeira
tentativa de inserir o Brasil na era dos monopostos modernos fracassara, a Formula
Junior de 1962 a 1964. A Tubolarte e Chico Landi construíram uma dezena de
monopostos, que foram equipados com motores Gordini,
DKW, Simca
e JK. As fábricas ajudaram onde puderam, mas não houve ânimo entre os poucos
automobilistas da era, para que a categoria fosse para a frente, e essa acabou
sendo a classe B da Mecânica Continental. As razões foram diversas, e são
discutidas em um artigo específico. Entre outras coisas, é
importante frisar que a própria Formula Junior caira no desuso a nível
internacional, a partir de 1964, sendo substituída pela Formula 3 como
categoria de acesso à Fórmula 1, e depois Fórmulas 2 e 3. Ou seja, de
inserido no contexto moderno, o Brasil passaria de novo a trilhar o caminho da
obsolência. Cabe aqui um parêntesis.
Ao passo que o automobilismo brasileiro e até mesmo a indústria automobilística
brasileira caminhavam a duros trancos em meados dos anos 60, com poucos modelos
e fábricas a beira da falência como a Vemag, FNM, Willys e Simca, o
automobilismo e mercado automobilístico argentino prosperavam. Entre outras
coisas, embora até 1966 só tivéssemos um único autódromo, os platinos
tinham diversos, em diversas áreas do pais, desde Buenos Aires, a Córdoba,
Rosario a Balcarce. A variedade de modelos fabricados na Argentina no início
dos anos 60 era estupenda, inclusive carros de origem americana de grande
cilindrada. Para ter uma idéia, clique
neste site, escrito em espanhol. E
apesar da popularidade da categoria Turismo de Carretera no país, outras
categorias mais modernas foram surgindo na Argentina, inclusive uma versão própria
da categoria Esporte Protótipo. Havia muito mais intercâmbio entre os
argentinos e europeus, iniciado com temporadas de Fórmulas 3 e 2, a partir de
1965, e logo se instituiu a categoria Fórmula 2 argentina, com seu próprio
regulamento e uso de motores locais. O sonho de consumo dos brasileiros. Ou seja, nosso benchmark
(ou se quisermos ser um pouco menos politicamente corretos, nosso objeto de
inveja) era o automobilismo argentino. Propôs-se, de uma forma um tanto tímida,
a instalação de uma Fórmula 3 no Brasil, e de fato a Willys construiu um
carro desta categoria para concorrer na Temporada Argentina de 1966. O carrinho
só fez sucesso em Interlagos, entretanto, chegando em segundo lugar nos 500
km de Interlagos de 1965, e embora não tenha dado vexame na Argentina,
ficava claro que estava longe de poder encarar os carros europeus. Depois veio a
crise da Willys, com a sua subseqüente venda para a Ford, e não se falou mais
de Fórmula 3 brasileira, muito menos da categoria sul-americana. Por insistência da Revista
Auto Esporte, começou a ser promovida a idéia de estabelecer a Fórmula
Vê no Brasil. A categoria,
surgida nos EUA, fazia sucesso em diversos lugares do mundo. Em tese, seria uma
categoria ideal para o Brasil, pois seria equipada com mecânica do carro que
era disparado o best seller no país, o Fusca,
com mecânica de baixo custo. Quem sabe até a VW, que sempre fora avessa ao
esporte automotivo no país, passasse a investir na categoria. A Fórmula Vê
parecia a resposta, mas muitos fatores conspiraram para o seu fracasso. Primeiro, a VW foi muito
tímida no seu apoio. O patrocínio comercial profissional ainda não existia no
Brasil, e sem o apoio direto da fábrica, era bem difícil para a categoria
prosperar. Segundo, a Fórmula Vê e o autódromo de Interlagos sobreviveram
juntos somente um ano. O autódromo paulista foi fechado para reformas no final
de 1967, e embora a reinauguração fosse inicialmente planejada para 1968, mais
tardar, 1969, a pista acabou voltando a funcionar somente em 1970. O autódromo
carioca fora inaugurado em 1966, mas, infelizmente, o forte do automobilismo
estava em São Paulo: os melhores recursos, pilotos, oficinas, equipes,
preparadores, patrocinadores e até mesmo a própria VW. Assim, no primeiro ano
a Fórmula Vê teve intensa participação de pilotos paulistas de primeira,
como Emerson Fittipaldi, Jose Carlos Pace e Marivaldo Fernandes,
culminando com a realização dos 500 km de Interlagos de 1967, disputados com
carros da categoria. Quando Interlagos fechou, o interesse dos paulistas se
esvaiu rapidamente, e no final de 1968 a categoria se transformara em uma
categoria regional carioca. Em terceiro lugar, os carros tinham preparação
limitada, e eram muito vagarosos, especialmente para o público rigoroso e
exigente de Interlagos, que estava acostumado a ver carros de 500 HP voando na
reta de partida e fazendo muito barulho. Os Vê simplesmente não empolgavam os
paulistas. Podemos citar também a
situação econômica adversa do país e a falta de cobertura na mídia,
acostumada a cobrir corridas de longa duração. Assim, em meados de 1969
os paulistas, se antecipando à reabertura de Interlagos em 1970, planejavam um
“upgrade” na Fórmula Vê, julgando que a categoria na forma atual não
atendia os anseios do público paulistano. Na verdade, a utópica categoria
seria chamada Fórmula Brasil, visava atender a gregos e troianos, e se
constituía verdadeira Fórmula Libre, que reuniria todas as categorias
de monopostos já existentes no Brasil até aquele momento, um verdadeiro
“vale-tudo”. Os pilotos da Associação
Paulista de Volantes de Competição, entidade na época liderada por Eduardo
Celidôneo, criaram um regulamento que vislumbrava duas categorias, até 2
litros e acima de dois litros. Na primeira categoria, pretendia-se aproveitar os
fracos Fórmula Vê, atualizados com motores VW de até 1,9 litros, rodas mais
largas e carrocerias mais aerodinâmicas (quase um precursor da Fórmula
Super Vê, que ainda não existia na Europa, e que viria a fazer muito
sucesso no Brasil). Obviamente, se o freguês quisesse correr com Fórmula Vê,
poderia, e imagino, nenhum Fórmula Junior Landi-DKW seria recusado! Um dos mais
entusiasmados defensores da nova categoria, Wilson Fittipaldi Junior,
inicialmente pretendia entrar na categoria com um Fitti-Vê modificado com motor
1.9, tala larga e aparência menos frágil, mas queria eventualmente equipar um
chassis novo com um motor mais potente, do FNM 2150. Vemos aqui, um
ressurgimento do conceito da Fórmula Junior de 1962, Brazilian style... O mais louco da estória
foi o proposto reaproveitamento, numa fase inicial, dos carrões da Mecânica
Continental que já estavam completamente obsoletos três anos antes. Camilo
Cristófaro acreditava que os seus carros ainda tinham o que dar, e que com
pneus mais grossos e alguns aperfeiçoamentos na suspensão e carroceria, os
velhos “mecânica” ainda teriam um lugar ao sol. Prometia até mesmo
deslocar o motor para posição entre eixos, para moderniza-los. Além de Camilo,
Antonio Carlos Avallone, que corria na Fórmula 5000 na Inglaterra, já estava
prometendo trazer os carros desta categoria para o Brasil. Como as imaginações
estavam obviamente fora de controle, previa-se também a participação de
carros superalimentados na categoria acima de dois litros!!!
Infelizmente, a idéia não
foi para a frente. De fato, realizou-se uma única prova da Fórmula Brasil, no
Festival de Velocidade em março de 1970, que contou com a participação de 3 Fórmulas
Ford (que venceram a corrida, mas estavam “fora do regulamento”, pois não
tinham motor nacional), alguns Fórmula Brasil e o resto do grid formado de Fórmulas
Vê normais. Não apareceram Camilo e seu Maserati-Corvette, nem tampouco o
outrora entusiasmado Wilson Fittipaldi Junior, que decidira gastar seu
entusiasmo na Fórmula 3 européia. Nem sombra de carros de Formula 5000,
superalimentados ou carros com motor FNM. O futuro das categorias
de monopostos no Brasil
ficaria nas mãos das categorias monomarcas, embora, com o fechamento do Autódromo
do Rio, tenha ocorrido a morte temporária da Fórmula Vê em 1970. A Temporada
BUA de Fórmula Ford fora um sucesso, e Luis Antonio Grecco conseguira
convencer a Ford para bancar a
categoria no Brasil a partir de 1971. Sim, os argentinos não
só conseguiam ter uma Fórmula 2 multimarca, como ainda criaram uma Fórmula 1
local, disputada com carros de motorização V8 (na realidade mais Fórmula 5000
do que Fórmula 1), pelos melhores pilotos da nação, como Luis di Palma,
Carlos Marincovich, Garcia Veiga e o uruguaio Pedro Passadore, além de uma
Fórmula 4.
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