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RECORDES
DO GORDINI EM 1964 Por Carlos de Paula Algo tinha que ser feito.
O Gordini vendia muito pouco. Mas vamos começar a história do início. Ao
estabelecer as diretrizes para implantação de novas fábricas de automóveis
no Brasil, em meados da década de 50, o GEIA exigiu que se implantassem fábricas
de utilitários e carros populares, em ordem de prioridade. Carros de luxo, nem
pensar. Como no Brasil as coisas já terminavam em pizza nessa época, entre os
carros inicialmente fabricados no Brasil, três eram justamente considerados
carros de luxo!!! Ironias das ironias, um deles era o JK, fabricado pela estatal
FNM (que teria, em tese, maior obrigação de seguir as diretrizes
governamentais, e não burla-las) e a outra foi a Simca, aqui
estabelecida por insistência do presidente JK, e que acabou produzindo carros
de luxo que não mais vendiam na França (o Chambord), em vez do Aronde. O terceiro luxuoso era o Aero-Willys.
Está certo que a Willys
também tinha a maior linha de utilitários, com os Jeep e Rural, mas a fábrica
com certeza sentiu que haveria uma carência de carros populares no mercado, e
por não ter nenhum projeto de carro popular, decidiu fazer um acordo
operacional com a francesa Renault, que assim se tornou acionista da WOB. A
Willys fabricaria no Brasil o Renault Dauphine, que concorreria
diretamente com o Fusca. O grande problema é que
o Dauphine já era conhecido na própria Europa e Estados Unidos como carro frágil,
e nas precárias estradas do Brasil dos anos 60, o simpático carrinho que
parecia sorrir caía aos pedaços após alguns anos de uso. Era na verdade mais econômico do que o Fusca, pois era
equipado com um motor de 850 cc, mas sua reputação foi ficando cada vez pior
com o passar dos anos. A Willys decidiu tomar algumas medidas para melhor a
imagem do seu produto. Uma delas foi trocar o
nome do carro, de Dauphine, para Gordini. Isso poderia fazer sentido na Europa,
pois a Gordini era uma equipe de Fórmula 1 atuante até 1957, tornando-se
posteriormente um speedshop da Renault, para criação de motores mais
esportivos. No Brasil, o impacto não foi tão grande. A outra iniciativa foi
criar um departamento de Competições, no qual a fábrica usaria a linha
Renault, pois os Aero eram completamente ineficazes nas pistas. A Equipe foi
criada em 1962, e logo começou a ganhar corridas no Brasil inteiro, embora a
arma usada fosse freqüentemente o esportivo Willys Interlagos, e não o Gordini.
Ainda assim, a Willys publicava freqüentes anúncios comprovando a eficácia do
Gordini nas pistas, documentando suas diversas vitórias. O anúncio se esquecia
de dizer, convenientemente, que as vitórias eram na maioria vitórias na classe,
sem nenhum outro concorrente! Ah, o mundo da propaganda... Em 1964, a Willys
chegava à óbvia conclusão de que estava perdendo a guerra para o Fusca. Este
tinha uma fama de altamente resistente, de mecânica simples, e caia no gosto
dos brasileiros. E a fama do pobre Gordini piorava, apesar da fábrica tentar
adaptar o frágil sedanzinho às más condições de tráfego no Brasil. A Willys precisava
provar, a todo custo, que o Gordini era resistente, e assim, decidiu fechar o
autódromo de Interlagos durante
vinte e dois dias, de 27 de
outubro a 17 de novembro de 1964, e tentar bater recordes internacionais de
resistência e velocidade, com o mau fadado carro. Quem sabe assim o público
passaria a confiar no seu produto de uma vez por todas e as vendas melhorariam.
A rapaziada dos records Um número grande de
pilotos foi escalado para pilotar o carro, um Gordini simples, sem preparo
nenhum. O chefe da equipe era, como sempre, Luiz Antonio Grecco, que também
pilotou o carro. Entre os pilotos, três futuros pilotos de Fórmula 1, Jose
Carlos Pace, Wilson
Fittipaldi Jr. e Luis
Pereira Bueno. Além destes, Carol Figueiredo, Danilo Lemos, Chiquinho
Lameirão, Bird
Clemente, Valdemir Costa, Vitório Andreatta e Geraldo Freire. Para
supervisionar a tentativa, estavam presentes representantes do Automóvel Clube
de São Paulo, Automóvel Clube do Brasil e da Federação Internacional de
Automobilismo, a FIA. A idéia era rodar com o
Gordini ininterruptamente, só realizando reabastecimento e revisões rápidas,
e exceto por uma bela capotada, que deixou o veículo com uma aparência um
tanto combalida, o heróico carrinho completou mais de 50.000 km, batendo 133
recordes. A bem da verdade, muitos recordes “batidos” eram nacionais, e
nunca haviam sido tentados antes. Mesmo assim, a média final no final da
maratona foi de 97,03 km/hr - nada mal, considerando-se que era um carro
standard. A tocada do carro foi bastante regular, pois no primeiro recorde
batido, de uma hora (atingido por Pace) a média foi de 99,26 km/hr. Pace também
obteve a única marca acima de 100 km/hr, a marca das 3 horas (100,33 km/hr). O privilégio de obter a
marca internacional de 50.000 km foi dado ao chefão Grecco, mas todos os
participantes da empreitada tiveram chance de obter pelo menos uma marca. Os
mais freqüentes recordistas da turma foram Luis Pereira Bueno, Carol Figueiredo
e Jose Carlos Pace. O comandante da
VARIG, Valdemir Costa, teve atuação destacada, com três recordes
internacionais de 8 dias, 13 dias e 18 dias. Foi um feito e tanto,
considerando-se que choveu durante parte da empreitada, e após a capotagem que
amassou o lado esquerdo do carro, a troca de pneus ficou dificultada. Apesar de amassado, o valioso Gordini atingiu a marca de 50.000 km. Venda que é bom... Após o feito, a Willys
veiculou durante quase um ano anúncios divulgando a força do Gordini. VEJA
AQUI CAMPANHA
SOBRE OS RECORDES DO GORDINI
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